1. O que é o TREF
O TREF é um instrumento digital de rastreio do processamento facial. O avaliando observa um rosto por 30 segundos e depois o reconstrói de memória, clicando nas regiões que lembra (olhos, boca, nariz e demais áreas). A ordem em que ele clica revela o padrão de escaneamento — por onde a atenção dele "começa" ao olhar um rosto.
A lógica clinica: pessoas com processamento facial típico tendem a priorizar as regiões sociais (olhos e boca), que concentram a informação emocional e comunicativa. Um padrão que evita essas regiões, priorizando a periferia, pode ser um indício de processamento facial atípico — relevante no rastreio de TEA e de ansiedade social.
2. Como é aplicado
- Codificação (30s): o rosto é apresentado para observação.
- Reconstrução: o avaliando clica, de memória, nas regiões do rosto; a ordem dos cliques é registrada.
- Crianças (6–12): 1 rosto (do mesmo sexo do avaliando).
- Adultos (13+): 2 rostos (permite leitura comparativa).
- Duração: aproximadamente 5 minutos.
3. O que o teste mede (TREF v3.2)
A partir da versão 3.1, a classificação do TREF deixou de depender do percentual de cliques em olhos e boca. Ela passou a ler como o avaliando percorre o rosto ao reconstruí-lo: o quanto o caminho de cliques salta entre regiões distantes (índice de ziguezague) e o quanto esse caminho muda de um rosto para o outro (índice de discrepância). O IFS continua sendo calculado, mas apenas como número informativo.
3.1 Três zonas do rosto
| Zona | Regiões | Papel na leitura |
|---|---|---|
| Social | Olhos (íris, pupila, pálpebra) e boca (lábios) | Maior carga emocional e comunicativa |
| Limítrofe | Bochecha, infraorbital, têmpora, sobrancelha, nariz e contorno do rosto | Perto do centro; não conta como periferia nem como evitação |
| Periferia | Testa, cabelo, orelhas, queixo, pescoço e roupa | Longe dos traços centrais |
3.2 Índice de ziguezague
Para cada rosto, o sistema calcula o centro de cada região clicada e mede a distância média entre cliques consecutivos, ao longo de toda a trajetória, do primeiro ao último clique. O resultado vai de 0 a 100.
- Valores baixos: o avaliando reconstrói regiões vizinhas em sequência (caminho organizado).
- Valores altos: o avaliando salta repetidamente entre regiões distantes, por exemplo olho, pescoço, cabelo, outro olho, roupa.
Referências aproximadas, obtidas em simulações feitas pelo desenvolvedor (não são dados clínicos): trajetórias agrupadas ficam em torno de 3; moderadas, entre 4 e 14; espalhadas, entre 22 e 57; e o vai-e-vem entre cantos opostos chega perto de 90. Um caso adulto de referência, com padrão típico, obteve 15 e 14 nos dois rostos.
3.3 Índice de discrepância
É a diferença absoluta entre o ziguezague do primeiro e do segundo rosto. Só existe quando o avaliando reconstrói dois rostos.
3.4 Regra de classificação
| Situação | Resultado exibido |
|---|---|
| Ziguezague acima de 22 nos dois rostos | Padrão sugestivo de processamento atípico; recomenda-se investigar com outros instrumentos (por exemplo, o TECFE) |
| Qualquer outra situação, inclusive ziguezague alto em apenas um rosto | Padrão típico (resultado descritivo) |
| Crianças até 12 anos (um rosto só): ziguezague acima de 22 nesse rosto | Escaneamento atípico de acordo com os estudos. Necessário investigar |
| Discrepância acima de 18, em qualquer dos casos acima | Nota: achado a investigar no inquérito |
Os limiares 22 (ziguezague) e 18 (discrepância) são provisórios e calibráveis. Foram definidos a partir de simulações e ancorados em um caso de referência, não em amostra normativa, e ficam num ponto único do código para ajuste conforme o uso clínico.
3.5 Índice de Fixação Social (IFS), apenas informativo
Mede o percentual de cliques nas regiões sociais. Na v3.1 ele não classifica o resultado e as antigas faixas (≥ 50%, 35–49%, 20–34%, < 20%) deixaram de definir típico ou atípico.
3.6 Índice de Fixação Social ponderado pela ordem (IFS-O), apenas informativo
O IFS linear mede quanto a pessoa olhou o social, mas trata todos os cliques por igual — o primeiro vale o mesmo que o último. O IFS-O corrige isso: dá mais peso ao que foi reconstruído primeiro, capturando a ordem do escaneamento. A hipótese é que a pessoa reconstrói primeiro aquilo que mais chamou sua atenção ao observar o rosto — reproduzindo, pela ordem, o padrão de priorização que a literatura de eye-tracking mede pelo tempo de fixação.
Peso decrescente pela ordem: numa sessão de N cliques, o 1º clique vale N, o 2º vale N−1, ..., o último vale 1. "Social" = olhos + boca. A zona limÃtrofe (infraorbital) e a periferia não contam como social.
Assim, buscar os olhos no início eleva o IFS-O; buscar o social só no fim o reduz. Exemplo (sessão de 4 cliques, pesos 4,3,2,1; total 10):
- Olhos, Olhos, Periferia, Periferia → (4+3)/10 = 70% (social no início).
- Periferia, Periferia, Olhos, Olhos → (2+1)/10 = 30% (social no fim).
Nos dois casos há a mesma contagem de cliques sociais (IFS linear igual, 50%), mas o IFS-O os distingue: 70% contra 30%. O laudo apresenta os dois escores lado a lado — o linear (quanto olhou o social) e o ponderado (o que buscou primeiro) — para uma leitura mais rica da estratégia de escaneamento.
3.7 Padrão de escaneamento (ordem dos cliques), descritivo
O rótulo abaixo descreve por onde o avaliando começou. Ele não define a classificação final, que vem do ziguezague (seção 3.4).
- Social-first: primeiros cliques em olhos/boca — padrão típico.
- Misto: sem preferência clara — acompanhar.
- Periferia-first: primeiros cliques fora de olhos/boca — padrão atípico.
4. Interpretação e limitações
- Ziguezague baixo nos dois rostos indica trajetória organizada; o resultado é descritivo.
- Ziguezague alto nos dois rostos merece aprofundamento com outros instrumentos. Não é diagnóstico.
- Ziguezague alto em apenas um rosto não é classificado como atípico.
- Discrepância alta é um achado a esclarecer no inquérito e pode ter várias causas, entre elas reatividade ao estímulo, como na ansiedade social.
- Os primeiros movimentos captam melhor a ansiedade social, enquanto o padrão atípico tende a aparecer mais no meio e no fim do escaneamento. Por isso o ziguezague considera a trajetória inteira.
- O TREF mede a ordem de reconstrução de memória, que não equivale à fixação ocular ao vivo e pode mascarar o padrão real.
- Um rosto só (crianças até 12 anos): aplica-se o mesmo limiar de ziguezague (22) ao rosto único. Acima dele, o resultado é “escaneamento atípico de acordo com os estudos; necessário investigar”; abaixo, “padrão típico”. Esse limiar foi calibrado com dados de adultos e é provisório para crianças. Com um rosto não há comparação entre rostos nem nota de discrepância.
- Correção visual e condições da tela influenciam e devem ser garantidas.
5. Efeito do sexo do rosto (viés do próprio gênero) — cautela interpretativa
Quando o avaliando responde a dois rostos (um feminino e um masculino), é comum observar diferenças no engajamento entre eles: mais atenção/priorização social a um dos sexos e menos ao outro. Antes de atribuir essa discrepância a uma causa clínica (por exemplo, um trauma com figura masculina ou feminina), o avaliador precisa considerar um fenômeno normal e bem documentado: o viés do próprio gênero (own-gender bias).
A literatura mostra, de forma consistente, que mulheres e meninas reconhecem e processam melhor faces femininas — e esse viés do próprio gênero é confiável nas mulheres, mas em geral não aparece nos homens. Uma meta-análise (HERLITZ; LOVÉN, 2013) encontrou que meninas e mulheres lembram mais faces no geral e, em especial, mais faces femininas, sem vantagem equivalente para faces masculinas. Em crianças e adolescentes, meninas superam meninos no reconhecimento de faces femininas, independentemente de etnia e idade das faces (REHNMAN; HERLITZ, 2006). O conteúdo foi parafraseado para conformidade com as restrições de licenciamento das fontes.
Há ainda um dado desenvolvimental relevante: o componente afetivo de preferir o próprio sexo (observado na infância) tende a declinar até a adolescência média e tardia (VIDA; MAURER et al., 2015). Por isso, uma diferença marcante entre os rostos pode ser matéria de curiosidade e acompanhamento — nunca de conclusão isolada. As causas do viés são multifatoriais, combinando fatores cognitivos com experiência e convivência (maior contato com um grupo de faces melhora seu processamento).
6. Base desenvolvimentista: o declínio da fixação nos olhos nos primeiros meses
A hipótese do TREF se apoia em evidências do desenvolvimento social precoce. Bebês já mostram preferência por rostos logo após o nascimento, e a atenção ao rosto vai sendo moldada pela experiência com os cuidadores, com respostas mais fortes ao rosto da mãe do que ao de um estranho (REYNOLDS; ROTH, 2018).
O dado mais relevante para o rastreio vem de Jones e Klin (2013). Os autores acompanharam, com eye-tracking, bebês de 2 a 24 meses, incluindo irmãos mais novos de crianças com autismo, enquanto assistiam a vídeos de um cuidador. Aos 2 meses, o tempo de olhar para os olhos era semelhante nos bebês que depois receberam diagnóstico de TEA e nos demais. Entre 2 e 6 meses, porém, esse tempo declinou nos que depois receberam o diagnóstico, padrão não observado nos outros. É o marcador comportamental mais precoce já associado ao autismo. Os olhos não estavam ausentes desde o início: o olhar começa em níveis normais e decai ao longo desses meses.
7. Fundamentação Teórica (Referências ABNT)
KLIN, A. et al. Visual fixation patterns during viewing of naturalistic social situations as predictors of social competence in individuals with autism. Archives of General Psychiatry, v. 59, n. 9, p. 809-816, 2002.
PELPHREY, K. A. et al. Visual scanning of faces in autism. Journal of Autism and Developmental Disorders, v. 32, n. 4, p. 249-261, 2002.
DALTON, K. M. et al. Gaze fixation and the neural circuitry of face processing in autism. Nature Neuroscience, v. 8, n. 4, p. 519-526, 2005.
JONES, W.; KLIN, A. Attention to eyes is present but in decline in 2–6-month-old infants later diagnosed with autism. Nature, v. 504, n. 7480, p. 427-431, 2013.
REYNOLDS, G. D.; ROTH, K. C. The development of attentional biases for faces in infancy: a developmental systems perspective. Frontiers in Psychology, v. 9, art. 222, 2018.
HERLITZ, A.; LOVÉN, J. Sex differences and the own-gender bias in face recognition: a meta-analytic review. Visual Cognition, v. 21, n. 9-10, p. 1306-1336, 2013.
REHNMAN, J.; HERLITZ, A. Higher face recognition ability in girls: magnified by own-sex and own-ethnicity bias. Memory, v. 14, n. 3, p. 289-296, 2006.
LOVÉN, J.; HERLITZ, A.; REHNMAN, J. Women’s own-gender bias in face recognition memory. Experimental Psychology, v. 58, n. 4, p. 333-340, 2011.
VIDA, M. D.; MAURER, D. et al. “The cooties effect”: amygdala reactivity to opposite- versus same-sex faces declines from childhood to adolescence. Journal of Cognitive Neuroscience, v. 27, n. 9, p. 1769-1786, 2015.
ASSOCIAÇÃO AMERICANA DE PSIQUIATRIA. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5-TR. 5. ed., texto revisado. Porto Alegre: Artmed, 2022.