🧠 TREF

Teste de Reconstrução e Escaneamento Facial

Manual Técnico e Fundamentação Teórica · TREF v3.2

1. O que é o TREF

O TREF é um instrumento digital de rastreio do processamento facial. O avaliando observa um rosto por 30 segundos e depois o reconstrói de memória, clicando nas regiões que lembra (olhos, boca, nariz e demais áreas). A ordem em que ele clica revela o padrão de escaneamento — por onde a atenção dele "começa" ao olhar um rosto.

A lógica clinica: pessoas com processamento facial típico tendem a priorizar as regiões sociais (olhos e boca), que concentram a informação emocional e comunicativa. Um padrão que evita essas regiões, priorizando a periferia, pode ser um indício de processamento facial atípico — relevante no rastreio de TEA e de ansiedade social.

Rastreio, não diagnóstico: o TREF oferece indícios do padrão de atenção facial. Não substitui a avaliação completa nem confirma TEA ou qualquer condição — um resultado atípico apenas sugere aprofundamento.

2. Como é aplicado

3. O que o teste mede (TREF v3.2)

A partir da versão 3.1, a classificação do TREF deixou de depender do percentual de cliques em olhos e boca. Ela passou a ler como o avaliando percorre o rosto ao reconstruí-lo: o quanto o caminho de cliques salta entre regiões distantes (índice de ziguezague) e o quanto esse caminho muda de um rosto para o outro (índice de discrepância). O IFS continua sendo calculado, mas apenas como número informativo.

Por que a mudança: o IFS penalizava quem reconstruía o rosto inteiro. Muitos cliques na periferia aumentavam o denominador e derrubavam o IFS, mesmo quando a pessoa tinha buscado os olhos logo no início. Isso gerava alarme falso em avaliandos com padrão típico.

3.1 Três zonas do rosto

ZonaRegiõesPapel na leitura
SocialOlhos (íris, pupila, pálpebra) e boca (lábios)Maior carga emocional e comunicativa
LimítrofeBochecha, infraorbital, têmpora, sobrancelha, nariz e contorno do rostoPerto do centro; não conta como periferia nem como evitação
PeriferiaTesta, cabelo, orelhas, queixo, pescoço e roupaLonge dos traços centrais

3.2 Índice de ziguezague

Para cada rosto, o sistema calcula o centro de cada região clicada e mede a distância média entre cliques consecutivos, ao longo de toda a trajetória, do primeiro ao último clique. O resultado vai de 0 a 100.

Referências aproximadas, obtidas em simulações feitas pelo desenvolvedor (não são dados clínicos): trajetórias agrupadas ficam em torno de 3; moderadas, entre 4 e 14; espalhadas, entre 22 e 57; e o vai-e-vem entre cantos opostos chega perto de 90. Um caso adulto de referência, com padrão típico, obteve 15 e 14 nos dois rostos.

3.3 Índice de discrepância

É a diferença absoluta entre o ziguezague do primeiro e do segundo rosto. Só existe quando o avaliando reconstrói dois rostos.

3.4 Regra de classificação

SituaçãoResultado exibido
Ziguezague acima de 22 nos dois rostosPadrão sugestivo de processamento atípico; recomenda-se investigar com outros instrumentos (por exemplo, o TECFE)
Qualquer outra situação, inclusive ziguezague alto em apenas um rostoPadrão típico (resultado descritivo)
Crianças até 12 anos (um rosto só): ziguezague acima de 22 nesse rostoEscaneamento atípico de acordo com os estudos. Necessário investigar
Discrepância acima de 18, em qualquer dos casos acimaNota: achado a investigar no inquérito

Os limiares 22 (ziguezague) e 18 (discrepância) são provisórios e calibráveis. Foram definidos a partir de simulações e ancorados em um caso de referência, não em amostra normativa, e ficam num ponto único do código para ajuste conforme o uso clínico.

Ansiedade social não é mais um rótulo. Uma discrepância alta entre os rostos é apenas uma pista: o avaliando escaneou os dois de formas bem diferentes. O teste a apresenta como achado a esclarecer no inquérito, citando a reatividade ao estímulo (como em ansiedade social) como uma entre várias hipóteses. Antes de qualquer hipótese clínica, considere o viés do próprio gênero (seção 5).

3.5 Índice de Fixação Social (IFS), apenas informativo

Mede o percentual de cliques nas regiões sociais. Na v3.1 ele não classifica o resultado e as antigas faixas (≥ 50%, 35–49%, 20–34%, < 20%) deixaram de definir típico ou atípico.

IFS = (cliques em olhos + cliques em boca) / total de cliques × 100

3.6 Índice de Fixação Social ponderado pela ordem (IFS-O), apenas informativo

O IFS linear mede quanto a pessoa olhou o social, mas trata todos os cliques por igual — o primeiro vale o mesmo que o último. O IFS-O corrige isso: dá mais peso ao que foi reconstruído primeiro, capturando a ordem do escaneamento. A hipótese é que a pessoa reconstrói primeiro aquilo que mais chamou sua atenção ao observar o rosto — reproduzindo, pela ordem, o padrão de priorização que a literatura de eye-tracking mede pelo tempo de fixação.

IFS-O = (soma dos pesos dos cliques sociais) / (soma de todos os pesos) × 100
Peso decrescente pela ordem: numa sessão de N cliques, o 1º clique vale N, o 2º vale N−1, ..., o último vale 1. "Social" = olhos + boca. A zona limítrofe (infraorbital) e a periferia não contam como social.

Assim, buscar os olhos no início eleva o IFS-O; buscar o social só no fim o reduz. Exemplo (sessão de 4 cliques, pesos 4,3,2,1; total 10):

Nos dois casos há a mesma contagem de cliques sociais (IFS linear igual, 50%), mas o IFS-O os distingue: 70% contra 30%. O laudo apresenta os dois escores lado a lado — o linear (quanto olhou o social) e o ponderado (o que buscou primeiro) — para uma leitura mais rica da estratégia de escaneamento.

3.7 Padrão de escaneamento (ordem dos cliques), descritivo

O rótulo abaixo descreve por onde o avaliando começou. Ele não define a classificação final, que vem do ziguezague (seção 3.4).

Ordem importa tanto quanto o total: duas pessoas podem ter IFS parecido, mas uma que começa pela periferia (periferia-first) sugere uma estratégia de olhar diferente da que começa pelos olhos. Por isso o TREF registra a sequência, e não só a contagem.

4. Interpretação e limitações

⚠ Instrumento experimental, sem validação normativa brasileira formal. Os limiares são provisórios (seção 3.4) e nenhum resultado conclui diagnóstico. Use como triagem e integre sempre com anamnese e demais testes. O laudo em PDF e a análise por IA gerados pelo painel ainda usam, por ora, a leitura por IFS; a classificação da v3.2 é a exibida na tela de resultado, e a análise por IA deve ser revisada pelo profissional.

5. Efeito do sexo do rosto (viés do próprio gênero) — cautela interpretativa

Quando o avaliando responde a dois rostos (um feminino e um masculino), é comum observar diferenças no engajamento entre eles: mais atenção/priorização social a um dos sexos e menos ao outro. Antes de atribuir essa discrepância a uma causa clínica (por exemplo, um trauma com figura masculina ou feminina), o avaliador precisa considerar um fenômeno normal e bem documentado: o viés do próprio gênero (own-gender bias).

A literatura mostra, de forma consistente, que mulheres e meninas reconhecem e processam melhor faces femininas — e esse viés do próprio gênero é confiável nas mulheres, mas em geral não aparece nos homens. Uma meta-análise (HERLITZ; LOVÉN, 2013) encontrou que meninas e mulheres lembram mais faces no geral e, em especial, mais faces femininas, sem vantagem equivalente para faces masculinas. Em crianças e adolescentes, meninas superam meninos no reconhecimento de faces femininas, independentemente de etnia e idade das faces (REHNMAN; HERLITZ, 2006). O conteúdo foi parafraseado para conformidade com as restrições de licenciamento das fontes.

Implicação prática: numa avalianda do sexo feminino, uma maior afinidade com o rosto feminino (mais cliques sociais, início mais precoce nos olhos) pode refletir apenas a tendência normal de identificação com faces do próprio gênero — e não um evento clínico. A discrepância entre sexos, isoladamente, não deve ser lida como sinal de trauma ou de patologia.

Há ainda um dado desenvolvimental relevante: o componente afetivo de preferir o próprio sexo (observado na infância) tende a declinar até a adolescência média e tardia (VIDA; MAURER et al., 2015). Por isso, uma diferença marcante entre os rostos pode ser matéria de curiosidade e acompanhamento — nunca de conclusão isolada. As causas do viés são multifatoriais, combinando fatores cognitivos com experiência e convivência (maior contato com um grupo de faces melhora seu processamento).

⚠ Regra de ouro: a diferença de desempenho entre o rosto feminino e o masculino é um dado a interpretar com o contexto, não um achado diagnóstico. Considere primeiro a explicação mais simples e esperada (viés do próprio gênero) antes de hipóteses clínicas mais graves, e integre sempre com anamnese e demais fontes.

6. Base desenvolvimentista: o declínio da fixação nos olhos nos primeiros meses

A hipótese do TREF se apoia em evidências do desenvolvimento social precoce. Bebês já mostram preferência por rostos logo após o nascimento, e a atenção ao rosto vai sendo moldada pela experiência com os cuidadores, com respostas mais fortes ao rosto da mãe do que ao de um estranho (REYNOLDS; ROTH, 2018).

O dado mais relevante para o rastreio vem de Jones e Klin (2013). Os autores acompanharam, com eye-tracking, bebês de 2 a 24 meses, incluindo irmãos mais novos de crianças com autismo, enquanto assistiam a vídeos de um cuidador. Aos 2 meses, o tempo de olhar para os olhos era semelhante nos bebês que depois receberam diagnóstico de TEA e nos demais. Entre 2 e 6 meses, porém, esse tempo declinou nos que depois receberam o diagnóstico, padrão não observado nos outros. É o marcador comportamental mais precoce já associado ao autismo. Os olhos não estavam ausentes desde o início: o olhar começa em níveis normais e decai ao longo desses meses.

Ligação com o TREF: se a atenção aos olhos se molda tão cedo pela experiência social, a ordem em que alguém reconstrói um rosto de memória pode carregar traços desse processamento. É uma hipótese teórica do instrumento, não um fato comprovado.
⚠ Cuidados na leitura: (1) O achado de Jones e Klin vem de eye-tracking ao vivo, em bebês, e descreve uma tendência de grupo; não permite prever o diagnóstico de uma pessoa. (2) O TREF mede a ordem de reconstrução de memória em crianças maiores e adultos, o que pode mascarar o padrão real: quem aprendeu a olhar para o rosto pode reconstruí-lo de forma organizada mesmo com um padrão de olhar diferente. (3) Um padrão típico no TREF, portanto, não exclui TEA.

7. Fundamentação Teórica (Referências ABNT)

KLIN, A. et al. Visual fixation patterns during viewing of naturalistic social situations as predictors of social competence in individuals with autism. Archives of General Psychiatry, v. 59, n. 9, p. 809-816, 2002.

PELPHREY, K. A. et al. Visual scanning of faces in autism. Journal of Autism and Developmental Disorders, v. 32, n. 4, p. 249-261, 2002.

DALTON, K. M. et al. Gaze fixation and the neural circuitry of face processing in autism. Nature Neuroscience, v. 8, n. 4, p. 519-526, 2005.

JONES, W.; KLIN, A. Attention to eyes is present but in decline in 2–6-month-old infants later diagnosed with autism. Nature, v. 504, n. 7480, p. 427-431, 2013.

REYNOLDS, G. D.; ROTH, K. C. The development of attentional biases for faces in infancy: a developmental systems perspective. Frontiers in Psychology, v. 9, art. 222, 2018.

HERLITZ, A.; LOVÉN, J. Sex differences and the own-gender bias in face recognition: a meta-analytic review. Visual Cognition, v. 21, n. 9-10, p. 1306-1336, 2013.

REHNMAN, J.; HERLITZ, A. Higher face recognition ability in girls: magnified by own-sex and own-ethnicity bias. Memory, v. 14, n. 3, p. 289-296, 2006.

LOVÉN, J.; HERLITZ, A.; REHNMAN, J. Women’s own-gender bias in face recognition memory. Experimental Psychology, v. 58, n. 4, p. 333-340, 2011.

VIDA, M. D.; MAURER, D. et al. “The cooties effect”: amygdala reactivity to opposite- versus same-sex faces declines from childhood to adolescence. Journal of Cognitive Neuroscience, v. 27, n. 9, p. 1769-1786, 2015.

ASSOCIAÇÃO AMERICANA DE PSIQUIATRIA. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5-TR. 5. ed., texto revisado. Porto Alegre: Artmed, 2022.