1. O que é o TPV-SET
O TPV-SET é um instrumento digital, exploratório e gratuito, de rastreio da percepção visual rápida, da busca visual e do controle inibitório sob pressão de tempo. Em termos simples: ele observa o quão depressa e com quão pouca confusão uma pessoa encontra combinações visuais corretas em meio a várias cartas, quando o relógio está correndo. É uma adaptação do conceito do jogo SET para fins de observação clínica.
A tarefa consiste em olhar uma pequena grade de cartas e localizar trios que formam um “SET” (uma combinação válida, definida mais adiante). Enquanto a pessoa faz isso, o sistema registra não apenas quantos acertos ela obtém, mas também quanto tempo leva, com que ritmo clica e que tipo de engano comete — pistas sobre a eficiência da sua percepção e da sua atenção.
O jogo SET foi criado por Marsha Jean Falco (SET Enterprises). O TPV-SET é uma adaptação do conceito para rastreio perceptivo, sem vínculo comercial com o jogo original.
2. Fundamentação teórica
Embora o TPV-SET seja um instrumento novo e exploratório, o seu desenho — os níveis, os tempos, as métricas — não foi escolhido ao acaso: cada parte dialoga com construtos consolidados da psicologia cognitiva e da neuropsicologia. Esta seção explica, de forma didática, a teoria que sustenta cada opção de desenho. Importante desde já: a teoria fundamenta o instrumento, mas não o valida empiricamente — ele continua sendo um rastreio exploratório.
2.1. Busca visual e a teoria da integração de características
A teoria da integração de características de Treisman e Gelade (1980) propõe uma distinção central para entender o TPV-SET. Quando procuramos um alvo que se diferencia por uma única característica (por exemplo, “ache o círculo vermelho entre círculos azuis”), a busca é paralela e pré-atentiva: o alvo “salta aos olhos” quase instantaneamente, quase sem esforço, e o tempo pouco cresce com o número de distratores. Já quando o alvo só se distingue por uma conjunção de características (por exemplo, “ache o círculo vermelho e grande”), a busca passa a ser serial e atentiva: é preciso examinar um item de cada vez, integrando as características, o que torna a tarefa mais lenta e mais custosa.
2.2. Atenção e processamento perceptivo
A base histórica para pensar o processamento visual e atentivo remonta a Neisser (1967), que estruturou o campo da psicologia cognitiva e tratou da forma como a mente seleciona, organiza e interpreta a informação perceptiva. O TPV-SET se ancora nessa tradição ao propor uma tarefa em que a percepção e a atenção seletiva são colocadas à prova.
2.3. O jogo SET como janela para processos perceptivos e cognitivos
A escolha do SET como base não é arbitrária. Jacob e Hochstein (2008) demonstraram que o próprio jogo SET pode ser usado como uma janela experimental para estudar a percepção e a cognição — investigando como as pessoas reconhecem conjuntos, integram múltiplas dimensões e tomam decisões perceptivas. Isso legitima cientificamente a ideia de adaptar a mecânica do SET para a observação de processos perceptivos e cognitivos.
2.4. Controle inibitório e funções executivas
No modelo de Barkley (1997), a inibição da resposta — a capacidade de conter a ação impulsiva e automática — é um construto executivo central, base sobre a qual se assentam a memória de trabalho, a autorregulação e a flexibilidade. O TPV-SET operacionaliza esse construto de duas formas:
- Os “falsos SETs”: marcar um trio de cartas alinhadas que parece um SET mas não forma um SET válido é uma falha de inibição — a pessoa cedeu ao impulso de fechar o trio sem verificar a regra. Muitos falsos SETs dialogam, portanto, com impulsividade.
- O nível N2: ele exige ignorar deliberadamente uma das características enquanto se considera as outras. Isso combina inibição de informação irrelevante com a manutenção de uma regra na memória de trabalho durante toda a busca.
2.5. Desenvolvimento da atenção e da busca visual ao longo da vida
A eficiência da busca visual e da atenção seletiva não é constante ao longo da vida. Plude, Enns e Brodeur (1994) descrevem o desenvolvimento da atenção seletiva numa perspectiva de ciclo vital, e Hommel, Li e Li (2004) mostram que a busca visual se transforma com a idade — aprimorando-se ao longo da infância e tendendo a declinar no envelhecimento. Essas evidências fundamentam duas decisões do TPV-SET: o uso a partir de 6 anos (quando a busca visual já está suficientemente desenvolvida para a tarefa) e a necessidade de que qualquer norma futura seja organizada por faixa etária.
2.6. Velocidade de processamento e envelhecimento cognitivo
A velocidade de processamento visuoespacial é um indicador sensível do funcionamento cognitivo e varia sistematicamente ao longo da vida (Salthouse, 2019; Aul et al., 2023). Esse dado fundamenta as métricas de tempo do TPV-SET — velocidade média entre cliques, tempo até o primeiro clique e tempo para completar a rodada — e também a decisão de dar uma folga de tempo para idosos (que tendem a ser cerca de 1,5 a 2 vezes mais lentos), de modo que o teste meça a percepção, e não a mera pressa.
2.7. Ancoragem brasileira do domínio avaliado
No contexto nacional, a obra organizada por Seabra e Dias (2012) consolida a avaliação neuropsicológica da atenção e das funções executivas, oferecendo referência brasileira para o domínio cognitivo que o TPV-SET busca observar.
3. A regra do SET
A tela apresenta uma grade 3x3 (9 cartas). Cada carta tem três características físicas, e cada característica pode assumir três valores diferentes:
- Cor (3 cores possíveis);
- Forma (3 formas possíveis);
- Número de símbolos na carta (3 quantidades possíveis).
Um SET é um trio de cartas no qual, para cada característica considerada, as três cartas são todas iguais ou todas diferentes — nunca “duas iguais e uma diferente”.
Portanto, só os trios fechados (3 cartas alinhadas) produzem resultado:
- Acerto: o trio alinhado forma um SET válido;
- Erro (“falso SET”): o trio alinhado não forma um SET;
- Omissão: um SET alinhado que existia na grade e não foi marcado.
4. Os três níveis
Cada nível mede um construto diferente, de acordo com quantas características entram no raciocínio. A sequência é sempre crescente (N1 antes de N2 antes de N3), e o avaliador escolhe no painel quais níveis aplicar — um, dois ou os três. Cada nível aplicado tem 3 rodadas.
| Nível | Construto | Características | Aviso na tela | Tempo/rodada |
|---|---|---|---|---|
| N1 | Percepção | Apenas 1 (sorteada) | Pilula ROXA: “PROCURE POR: COR/FORMA/NÚMERO” | 25s |
| N2 | Memória de trabalho | 2 (exclui 1 sorteada) | Pilula VERMELHA: “IGNORE: X” (some depois) | 40s |
| N3 | Carga total | As 3 ao mesmo tempo | — | 60s |
N1 — Percepção
Considera apenas 1 característica, sorteada a cada rodada. O programa avisa no início qual característica procurar, por meio de uma pilula roxa (“PROCURE POR: COR”, por exemplo). Como há uma única dimensão relevante, este nível mede a percepção visual pura — a busca por característica única, rápida e pré-atentiva (ver seção 2.1). A grade é aleatória e o tempo é de 25 segundos por rodada.
N2 — Memória de trabalho
Considera 2 características: o programa sorteia 1 característica para excluir e avisa qual apenas no início da rodada, por meio de uma pilula vermelha (“IGNORE: COR”, por exemplo). Depois, o aviso desaparece. A pessoa precisa, então, manter essa regra ativa na memória durante toda a busca — inibindo a característica irrelevante e sustentando a regra. O tempo é de 40 segundos.
N3 — Carga total
As três características contam ao mesmo tempo (carga máxima). É a busca por conjunção completa, serial e custosa. O tempo é de 60 segundos.
5. Pontuação e resultado
5.1. Perfil por nível
Para cada nível calcula-se a proporção (%) de SETs corretos, classificada por faixas descritivas provisórias (sem norma):
| Faixa | Proporção |
|---|---|
| Baixo | < 33% |
| Intermediário | 33% a 66% |
| Alto | > 66% |
Essas faixas são provisórias, destinadas a orientar a coleta normativa — não são normas.
5.2. Escore geral ponderado
O escore geral é uma média ponderada pelas exigências dos níveis, com N1 peso 1, N2 peso 2 e N3 peso 3:
O resultado é classificado nas mesmas faixas (Baixo / Intermediário / Alto). Como só entram no cálculo os níveis efetivamente aplicados, o denominador é a soma dos pesos daqueles níveis.
5.3. Indicador de estabilidade entre rodadas
Para cada nível, o teste calcula a amplitude (maior proporção menos a menor) entre as 3 rodadas:
- ≤ 25 pontos percentuais → estável;
- > 25 pontos percentuais → variável.
5.4. Indicadores globais
- Acertos totais (SETs válidos marcados);
- Erros (falsos SETs);
- Omissões (SETs alinhados existentes e não marcados);
- Velocidade média entre cliques;
- Tempo médio até o 1º clique;
- Tempo médio para completar (TC): se a pessoa marcou todos os SETs, é o tempo do último clique; se não, é o tempo total da rodada. Quanto menor, melhor.
5.5. Leitura clínica dos extremos
Como racional do autor (e não como classificação normatizada):
- Valores muito baixos, sobretudo quando estáveis nas três rodadas, sugerem fragilidade de percepção/velocidade;
- Valores altos indicam boa percepção;
- A faixa intermediária é a “incógnita” até que haja norma;
- Os erros (falsos SETs) dialogam com o controle inibitório (Barkley): muitos falsos sugerem possível impulsividade.
6. Efeito fadiga e coleta normativa
Como a ordem de aplicação é sempre crescente, um mesmo nível pode ser realizado em duas situações diferentes:
- “Puro” — quando é o primeiro nível da aplicação (sem fadiga prévia);
- “Com fadiga” — quando vem depois de outro(s) nível(is).
O peso de fadiga corresponde à posição do nível na sequência: 0 para o primeiro, 1 para o segundo, 2 para o terceiro. A fadiga é medida entre níveis (comparando N2 puro vs. N2 com fadiga, e N3 puro vs. N3 com fadiga), e não entre rodadas — as rodadas servem para medir a estabilidade (seção 5.3).
7. Fluxo de aplicação
- No painel, acesse a aba Percepção > TPV-SET e clique em “Nova Aplicação”;
- Escolha o paciente / preencha os dados e selecione os níveis a aplicar;
- Gere o link do paciente (aplicação remota) ou aplique localmente;
- O paciente faz um treino prévio, com feedback e exemplos de SET válido e inválido, antes de a avaliação valer;
- Ao final, o PDF é gerado pelo painel.
8. Limitações e uso responsável
9. Referências
JACOB, M.; HOCHSTEIN, S. Set recognition as a window to perceptual and cognitive processes. Perception & Psychophysics, v. 70, n. 7, p. 1165-1184, 2008.
TREISMAN, A. M.; GELADE, G. A feature-integration theory of attention. Cognitive Psychology, v. 12, n. 1, p. 97-136, 1980.
NEISSER, U. Cognitive psychology. New York: Appleton-Century-Crofts, 1967.
BARKLEY, R. A. Behavioral inhibition, sustained attention, and executive functions: constructing a unifying theory of ADHD. Psychological Bulletin, v. 121, n. 1, p. 65-94, 1997.
SEABRA, A. G.; DIAS, N. M. (orgs.). Avaliação neuropsicológica cognitiva: atenção e funções executivas. São Paulo: Memnon, 2012. v. 1.
HOMMEL, B.; LI, Z.-H.; LI, S.-C. Visual search across the life span. Developmental Psychology, v. 40, n. 4, p. 545-558, 2004.
PLUDE, D. J.; ENNS, J. T.; BRODEUR, D. The development of selective attention: a life-span overview. Acta Psychologica, v. 86, n. 2-3, p. 227-272, 1994.
SALTHOUSE, T. A. Trajectories of normal cognitive aging. Psychology and Aging, v. 34, n. 1, p. 17-24, 2019.
AUL, C. et al. The functional relevance of visuospatial processing speed across the lifespan. Cognitive Research: Principles and Implications, v. 8, art. 51, 2023.
Crédito: o jogo SET foi criado por Marsha Jean Falco (SET Enterprises); este teste é uma adaptação do conceito para rastreio perceptivo, sem vínculo comercial com o jogo original. As referências acima embasam os construtos em que o TPV-SET se inspira, e não o instrumento em si, que ainda não possui estudos de validação publicados.